Charneca da Caparica I –
Um pouco de tudo
03.04.2025.










1 – Estrada Nacional (EN) 377 (João Cunha Borges)
2 – Rua Marco Cabaço (Ana Brandão)
3 – Cruzamento EN 377 e Rua Marco Cabaço (AB)
4 – EN 377 (JCB)
5 – EN 377 (JCB)
6 – Cruzamento da EN 377 com a Rua de S. Pedro (AB)
7 – Edificado pré-moderno da EN 377 (JCB)
8 – EN 377 e Igreja da Charneca (JCB)
9 – EN 377 (AB)
10 – Loteamento no Botequim (JCB)
A urbanização clandestina, resultante da subdivisão de quintas e do preenchimento progressivo dos lotes resultantes, tem por característica uma necessária desordem.. A construção é feita lote a lote, com objectivos individuais em vista, e sem qualquer relação – até sem qualquer possibilidade de relação – com o envolvente. Esta desordem não significa, no entanto, que estas sejam áreas urbanas desprovidas de qualquer lógica ou hierarquia. Sobretudo as condições infraestruturais fizeram com que, ao longo do tempo, certas zonas fossem ganhando uma certa centralidade, acumulando funções não residenciais que se afastam do modelo elementar de ‘loteamento com moradias’.
Pense-se a Charneca da Caparica. Uma zona elevada, com vales pouco pronunciados, que Étienne de Gröer e João Guilherme Faria da Costa, os primeiros planeadores de Almada, quiseram reservar como área agrícola. A abertura da Ponte sobre o Tejo em 1966, que tornou Lisboa e Almada muito mais próximas, fez irresistíveis estes terrenos para a especulação imobiliária, quase sempre conduzida informalmente. Quinta do Gil, Quinta do Salema, Vale Fetal, Quinta Nova, Vale do Rosal, Foro da Mafalda, Palhais, Botequim, Quinta do Pinheiro, Quinta de Dentro, Quintinha, Poço Novo, Vale de Cavala – como costuma acontecer neste tipo de territórios, a toponímia retém os nomes das quintas que entretanto foram loteadas, mas é uma toponímia com pouca significação para quem não viva ali. Quem não viva ali verá sobretudo aglomerados sucessivos de casas, por vezes mais espaçados, por vezes mais preenchidos.
A Estrada Nacional 377-1 assume aqui um carácter de excepção. Vai tendo vários nomes de rua, por norma mudando a cada nó, mas tem uma continuidade que decorre da sua pré-existência: de facto, trata-se duma antiga estrada de ligação ao sul da península. É também um dos poucos locais na Charneca onde é possível encontrar edificações anteriores à segunda metade do século XX, o típico edificado de berma de estrada, de baixa densidade e traço simples. Mas não só – o que se encontra nesta estrada é, afinal, um pouco de tudo. Moradias velhas e novas, aburguesadas ou precárias, prédios de várias alturas, lojas, centros de análises clínicas, farmácias, churrasqueiras, marisqueiras, residenciais, restaurantes baratos e caros e alguns internacionais, hipermercados, oficinas, dentistas, oculistas, restaurantes de fast food, boutiques, cabeleireiros e centros de estética e barbearias, agências bancárias, bazares, hortos, veterinários, parques de estacionamento. No meio de tudo isto, a sinalética acumula-se, sobrepondo nomes e anúncios com letterings de várias épocas, setas em várias direcções que indicam a quem passa algumas funções que já se localizam em ruas secundárias.
Esta estrada contém, por isso uma importante lição sobre a urbanização clandestina. Que, sob a desordem que não pode deixar de ser inerente à sua forma de produção, não deixa de existir uma lógica, entre o imposto pelas condições infraestruturais e a auto-organização.
É esta procura algo ambígua que leva os comerciantes e prestadores de serviço a concentrar-se numa zona específica, que se vai tornando cada vez mais o centro – embora centro linear – duma vasta área a que falta organização, hierarquia e coerência.
Não é a ‘strip’ de Las Vegas, mas também não é a rua vazia e repetitiva do típico bairro clandestino onde a única quebra da monotonia são os ecleticismos de certos edifícios. É uma rua comercial, com alto valor como espaço público e como elo de ligação com o ‘exterior’. Pode esta lógica – e a sua expansão – ser o ponto de partida para uma reestruturação da Charneca da Caparica, contrariando as suas principais carências?
João Cunha Borges
Researcher | Investigador