Póvoa de Santo Adrião I
04.04.2025.










1 – Largo Major Rosa Bastos
2 – Estrada Nacional (EN) 8, à saída do Largo Major Rosa Basto
3 – Largo Major Rosa Bastos
4 – Edificado pré-moderno no Largo Major Rosa Bastos
5 – Quiosque junto da entrada da Quinta dos Sete Castelos, Largo Major Rosa Bastos
6 – Travessa da Machada
7 – Ribeira da Póvoa, e traseiras do Bairro do Terço
8 – Bairro do Terço
9 – Largo da Rua 25 de Abril
10 – Cobertura da Escola de Ténis da Póvoa de Santo Adrião
Quem percorra hoje o eixo por onde passará, quer-se, o futuro metro da linha violeta, encontrará uma das estradas mais antigas da zona entre Odivelas e Loures. Uma verdadeira Rua Direita, com edifícios de grande diversidade e espaços públicos complexos.
Um dos seus pontos nevrálgicos é o Largo Major Rosa Bastos, em volta do qual se organiza o centro histórico da Póvoa de Santo Adrião. Velhas casas rurais reaproveitadas, portões de quinta, casas operárias e vielas que levam a construções nas traseiras. Cabeleireiros, cafés, funerárias, floristas, retrosarias, farmácia, drogaria, churrasqueiras, mercearias, oculista, um showroom de mobiliário: um misto de comércio suburbano e de praça central de província, gerando paragens para conversas e encontros de ocasião. Tudo isto num espaço relativamente exíguo que aguenta ainda com notável resiliência a passagem de tantas carreiras da Carris Metropolitana. Autocarros que geram fluxos: gente que desaparece para as ruas modernas à cota mais alta da vila, gente que segue pela rua principal, um ou outro que permanece na paragem à espera de um outro autocarro. Pelo meio, os bancos sob árvores ou sob a paliçada com glicínias que pontuam o largo e lhe constituem o principal do mobiliário urbano, são infalíveis lugares de paragem, uma paragem ora contemplativa, ora de convívio, para os mais velhos.
Mais adiante, pela estrada municipal em direcção a Odivelas, encontramos o limite da Póvoa de Santo Adrião urbana. Urbana mesmo: grandes torres com mais duma dezena de pisos, blocos de prédios encavalitados uns sobre os outros. Quase tudo resulta duma grande urbanização de duas quintas, a Quinta de São João e a Quinta das Areias. O projecto, comum às duas conversões de uso de solo, apresenta tipologias e morfologias diferentes, mas uma linguagem arquitectónica aparentada, e que é um testemunho do quão abrupta foi a transformação desta paisagem há menos de cem anos ainda agrícola.
Do lado oposto da estrada, uma sucessão de pequenos blocos habitacionais, com os pisos térreos vazados preenchidos por estacionamentos, e com comércio num primeiro piso onde se rasga uma pequena galeria, fecha o conjunto: é o Bairro do Terço. Os seus espaços comerciais, elevados face à rua, são geradores de algum movimento, e confortáveis no uso. São, no entanto, espaços descontínuos e que, muitas vezes, parecem exigir ao utente um pré-conhecimento das funções existentes – não são sítios a que se chegue ‘por acaso’. Como as galerias de acesso a habitações, são também espaços com uma certa ambiguidade, à partida mais compatíveis com uma utilização vicinal e semifechada.
Do o lado da grande urbanização, a estrada tem em frente um conjunto de espaços equipados. O Jardim d’El Rei, arborizado e estruturado, e em frente um conjunto de campos desportivos rodeados por redes. Mais à frente, um coberto de latão pintado de verde e já bastante macerado por tags, sob o qual foram colocadas umas mesas e cadeiras fixas, não se sabe quando nem r por quem. É aqui que, nas palavras duma utilizadora de longa data, ‘faça chuva ou faça sol’ se encontra um grande aglomerado de gente – homens e mulheres, embora segregados, mas a conviver durante longas e animadas horas. Têm uns com os outros grande familiaridade, conversam de mesa para mesa, circulam entre mesas para avaliar os jogos e trocar palavras com os jogadores ou com outros assistentes. Ao fundo, as mulheres sentam-se nos bancos corridos a conversar, por vezes uma levanta-se para ir embora ou outra passa e acaba por sentar-se também.
Será o espaço de maior vivacidade das redondezas, a existência duma comunidade com laços relevantes é, naturalmente, uma condição para esta vivacidade. O mobiliário urbano é instrumental a parte das actividades que ali se realizam, uma combinação de peças elementares ao ponto de parecerem irrelevantes, mas que estão na base dum espaço público de rara qualidade.
O momento presente apresenta, no entanto, um desafio difícil: a inserção do metro de superfície, que passará por aqui, reperfilando uma parte da rua. A eliminação de lugares de estacionamento e o aumento do barulho e da confusão afirmam-se como as duas principais preocupações, sobretudo junto dos moradores. Como fazer isto sem sacrificar a intensa mas delicada vida pública que se encontra, actualmente, neste local? Para resolver o problema, será inevitável pensar a importância da rua, não só como espaço de passagem, mas sobretudo como espaço colectivo, de vivência, que deve reforçar-se – e não sacrificar-se – com o melhoramento das infraestruturas, que não deixa de ser uma carência muito relevante.
João Cunha Borges
Researcher | Investigador