Laranjeiro I – O Bairro Económico
04.04.2025.










1 – Rua Bento de Jesus Caraça (João Cunha Borges)
2 – Rua da Saudade (JCB)
3 – Rua Bento de Jesus Caraça (Ana Brandão)
4 – Rua da Saudade, embasamento dos prédios (AB)
5 – Praceta sobrelevada na Rua da Saudade (JCB)
6 – Praceta sobrelevada na Rua da Saudade (JCB)
7 – Zona arborizada (JCB)
8 – Rua Bento de Jesus Caraça (JCB)
9 – Rua Bento de Jesus Caraça (JCB)
Num sector da antiga quinta do Laranjeiro de Fora, inaugurou-se em 1971 um Bairro Económico para realojar moradores das barracas do Alto da Margueira e do Morro de Cacilhas, zonas em franca transformação devido à expansão industrial da década anterior.
A inauguração, como se vê numa reportagem da época conservada no Arquivo RTP, foi festiva. Houve ramos de flores ,a bênção do bairro pelo Cardeal Cerejeira; confettis lançados pela população; discursos maçadoramente populares a saudar a comitiva.
O Bairro Económico do Laranjeiro é parte do programa assistencialista iniciado em 1970, com financiamento pela Fundação Salazar e projectos vindos das Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência. E que, nos quatro anos seguintes, promoveu vários conjuntos, de diferentes dimensões e morfologias, em várias cidades e vilas portuguesas e ainda nas então colónias.
A Fundação Salazar, instituição particular de utilidade pública geral, fora fundada em para “facultar habitação em boas condições económicas, higiénicas e morais àqueles que, devido aos seus fracos recursos, não possam por outra forma consegui-la”(1). O articulado não difere dos padrões dominantes da política habitacional do Estado Novo, incluindo a intenção moralizadora. Que mesmo nesse âmbito, a Fundação Salazar tenha construído habitações colectivas numa cidade onde as tradições comunistas e anarquistas precediam ao Estado Novo, não deixa de surpreender. Eram 280 fogos em 37 edifícios de quatro ou cinco pisos. O bairro era apenas residencial: do plano constam apenas edifícios habitacionais – sequer uma loja de piso térreo. Era ainda um tempo, recorde-se, em que não se queria ajuntamentos.
Como se pensou, então, o espaço colectivo deste bairro? Pensou-se sobretudo enquanto imagem. Isto é, foi concebido como um projecto de arranjo paisagístico para um lazer vagamente definido, e ao qual não são atribuídas funções específicas traduzíveis em equipamento.
O autor foi Gonçalo Ribeiro Telles, já naquela altura um destacado arquitecto paisagista, com preocupações de diferenciação visual e sensitiva. Duas espécies de árvores, 23 espécies de arbustivas, seis tipos de revestimento vegetal, mais dois tipos de relvado, além duma mata cuja plantação incluía quatro espécies de pioneiras e treze definitivas. A vegetação articula-se com caminhos pedonais, escadas públicas, acessos aos blocos habitacionais, plataformas elevadas e um riacho. Com espaços mais abertos ao convívio, outros à contemplação, espaços de ambiente urbano, outros de ambiente bucólico.
Embora sem diversificar as possibilidades de uso do espaço público, não há dúvida de que o plano para o Bairro Económico do Laranjeiro propôs um espaço público minucioso e esmerado, prevendo criteriosamente as coberturas ora artificiais ora naturais. Muitas das propostas de Ribeiro Telles parecem confirmar-se no bairro que foi construído.
No entanto, hoje, os espaços exteriores do bairro estão tão desmazelados – um conjunto de terrenos mal ajardinados, de árvores raquíticas e arbustos doentes, talvez com excepção da praceta elevada no ‘coração’ do bairro, cujos canteiros têm melhor tratamento – que não se reconhece à primeira vista o cuidado no seu desenho. De facto, o próprio bairro apresenta tantas marcas de decadência e negligência, tanto nas zonas livres como nas construídas, que todas as suas qualidades originais parecem ter desaparecido. O bairro carece, a todos os títulos, de requalificação.
O projecto original de Ribeiro Telles talvez ainda não tenha perdido o sentido. Pelo contrário, parece oferecer qualidade paisagística, biodiversidade, bem como uma rede de espaços colectivos de diferentes ambientes, possibilidades que vão ao encontro de preocupações contemporâneas. Ilhas de sombra/ refúgios de calor, controlo de cheias, captação de CO2.
O problema é complexo, e exige o envolvimento de várias instituições – desde a Câmara Municipal de Almada ao Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, proprietário dos edifícios. A qualidade ambiental e as aspirações duma comunidade bastante enraizada serão questões a ter em conta numa intervenção que, embora urgente, se afigura como de grande potencial.
(1) Decreto-Lei n.º 721/73, de 31 de dezembro, Capitulo II – Arts. 2 e 4-b)
João Cunha Borges
Researcher | Investigador