Monte da Caparica I

Monte da Caparica I

06.04.2025.

1 – Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Monte (Ana Brandão)
2 – Adro da Igreja de Nossa Senhora do Monte (AB)
3 – Largo Cândido dos Reis (João Cunha Borges)
4 – Rua dos Trabalhadores Rurais (JCB)
5 – Sede do Clube Recreativo União e Capricho na Rua Alfredo Cunha (JCB)
6 – Paragem de autocarro na Rua Alfredo Cunha (JCB)
7 – Centro Comercial Caparica na Rua Alfredo Cunha (JCB)
8 – Loteamento na antiga Quinta das Amoreiras (AB)
9 – Espaço público da Praceta Carlos Reis (AB)
10 – Rua dos Trabalhadores Rurais, vista do Largo da Torre (JCB)

À hora de almoço mal se consegue passar pelo centro do que foi a aldeia, dado o fluxo de gente a entrar ou a sair dos pequenos restaurantes e tascas, das pastelarias, versus a estreiteza das ruas. Algum desse movimento também aproveita às lojas dos pequenos edifícios ou rés-de-chão frente ao adro da Igreja, mais escondidas atrás dos carros mal estacionados.

Apesar duma reabilitação recente este adro preserva o seu carácter, o largo empedrado e desimpedido de obstáculos, parcialmente protegido pela sombra dum grande plátano que, nos dias de verão, será lugar de paragem após a missa. Sobre o banco adossado à fachada, uma Nossa Senhora pintada de azul abençoa o Monte, que já não é, como o nome podia evocar, o monte bucólico, mas uma grande área urbana do interior de Almada.

Essa mudança é facilmente visível sem ser preciso afastarmo-nos muito da Igreja onde, em tempos, veio rezar Bulhão Pato, ou das portas dos cafés onde os construtores civis fumam os seus cigarros, deitando o cheirinho no café. Há a sede do CRUC – Clube Recreativo União e Capricho (que nome arrojado!), fundado em 1911, e que continua aberto ao convívio dos locais. Há os muros de quinta, de onde o reboco vai esfarelando deixando à mostra tijolos e pedras reaproveitados de outras obras, à sombra de prédios de rendimento semelhantes aos da Lisboa popular early modern, com entrada por passeios da largura dum pé, que mesmo assim são uma imposição na via estreita.

Outras casas – é incerto se feitas para trabalhadores rurais ou para operários – nem isso têm, e à soleira das portas baixas têm uma valeta calcetada a basalto que tanto serve para caminhar rente à estrada como para dirigir as águas pluviais.

À medida que nos adentramos pelas novas áreas, de prédios onde muitas vezes vivem os alunos da UNL, passeios alargam, e fizeram-se (ou deixou-se espaço para fazer) alguns jardins e pracetas, nem sempre muito equipados e nem sempre com muitos sinais de uso.

Uma contradição parece atravessar estes locais: os espaços públicos mais coesos e com maior vivacidade revelam-se difíceis de estruturar, principalmente na compatibilização de usos e circulações. Por outro lado, muitos espaços dimensionados e organizados de forma mais coerente e planeada não foram ainda capazes de gerar condições de vida pública comparáveis às da aldeia.

Se as acções promovidas ao abrigo da Operação de Reabilitação Urbana do Monte da Caparica muito melhoraram o espaço público da aldeia, um percurso desta até à sua envolvente imediata – do Mercado Municipal aos loteamentos especulativos junto da FCT-UNL – torna evidentes os desafios: os espaços têm condições para ser qualificados, falta-lhes ser atractivos.

O recente programa da CMA para espaços públicos de proximidade, ‘O Meu Bairro’ colocou à votação pelos munícipes da União de Freguesias de Caparica e Trafaria um espaço periférico à aldeia consolidada, o Largo da Torre. A votação favoreceu a outra alternativa (o Largo Manuel de Arriaga na Trafaria), mas a reabilitação do Largo da Torre e a solução que se encontre para os terrenos em volta da Rua dos Trabalhadores Rurais será uma excelente oportunidade para melhorar a qualidade de vida no assentamento. Mais ainda, constitui uma oportunidade para pensar formas de intervenção em casos deste tipo – tecidos urbanos e espaços públicos de matriz pré-moderna ou rural – com desafios similares.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador