Nova Odivelas aconteceu?

Nova Odivelas aconteceu?

21.03.2025.

1 – Cruzamento do Odivelas Plaza com a Rua Dr. Egas Moniz (Ana Brandão)
2 – Odivelas Plaza (AB)
3 – Rua José Gomes Monteiro (João Cunha Borges)
4 – Escadas da Alameda do Poder Local (AB)
5 – Rua Jorge de Sena – residencial (JCB)
6 – Rua Jorge de Sena – pormenor do embasamento (AB)
7 – Rua Jorge de Sena – centro comercial (JCB)
8 – Rua Dr. Egas Moniz (AB)
9 – Rua Cândido dos Reis (JCB)
10 – Parque Infantil Egas Moniz (JCB)

Nova Odivelas: o nome aparece na primeira versão do projecto, entregue na Câmara Municipal de Loures em Junho de 1974. Em pleno Processo Revolucionário em Curso, a EDEC – Edificações Económicas S.A.R.L. com sede em Lisboa vem entregar o projecto para um grande conjunto de habitação em massa em Odivelas assinado pelos arquitectos Helena Peres e Artur Florentino. 

O que havia sido a aldeia de Odivelas, com o Convento e o Instituto, expandira-se abruptamente para sul – o Bairro Olaio e o pequeno Bairro dos Kágados – e para nordeste – a Quinta do Mendes. A chamada Quinta Nova seria a terceira grande operação urbanística naquela zona, a primeira separada do núcleo antigo. E o nome, pujante, de Nova Odivelas sugeria uma recentralização. Que iria para além de si mesma: no início da década de 1970, várias operações de grande escala são lançadas ou perspectivadas, e não parece haver dúvidas que há uma nova Odivelas a surgir a montante da melhorada Estrada Nacional 8 e da projectada variante à Estrada Nacional 250, que ‘aproximariam’ Lisboa daquele lugar outrora remoto (1). 

A nova comunidade teria 3180 novos fogos com uma população de cerca de 11.100  habitantes. A Memória Descritiva enfatiza a abundância de espaços arborizados ou ajardinados, e um parque urbano “com os objectivos de facultar às populações os verdes aprazíveis para recreio e lazer e ainda de proporcionar condições propícias à correcção do regime das águas” (2), a somar a uma generosa rede de equipamentos: centro administrativo e comercial, centro desportivo e recreativo, escola secundária, serviços e comércio de proximidade, supermercado, farmácia, lavandarias, bancos, garagens. A norte, na zona da Ramada, seria construída uma central de transportes colectivos.  

Procura-se antecipar as necessidades da comunidade a instalar, e a grande disponibilidade de espaço livre, decorrente da visão moderna do plano, surge como um potencial gerador de vida pública. Numa das plantas preparadas pelos arquitectos, são inclusivamente especificadas ‘Zonas de vida urbana intensa’ (3).

Estas ambições do plano não parecem ter vingado. O espaço livre entre edifícios foi projectado, mas raramente foi desenhado e construído. Os seus espaços mais definidos são os que respondem à automobilidade: os parques e lugares de estacionamento. Muitos dos espaços verdes não se distinguemde terrenos expectantes, cobertos de vegetação espontânea e caminhos de pé posto.  

Pese embora os seus ocasionais pontos de interesse, a Quinta Nova nunca de facto pareceu cumprir o propósito de ser uma Nova Odivelas, algo que os próprios promotores parecem ter assumido. Algumas zonas conseguiram desenvolver comércio de rua, mas aparte este, a Quinta Nova seria uma mera continuação do Bairro Olaio, cuja Avenida D. Dinis, com o Mercado Municipal e a ligação estreita ao centro histórico, mantinha uma centralidade mais significativa. 

Nos primeiros anos do século XXI a expansão do Metro de Lisboa leva a linha amarela até ao Senhor Roubado e, daí, até Odivelas. O discreto edifício da estação, ligando três cotas, precisamente do Bairro dos Kágados à Quinta Nova, foi projectada pelo arquitecto Paulo Brito da Silva. A nova estação trará ainda consigo o Odivelas Plaza, um grande edifício construído pela construtora Obriverca, contendo 109 apartamentos e 19 lojas. A praça e o sistema de escadarias deste edifício acoplado à estação de metro vieram, afinal, reanimar uma certa ideia de que ali, junto ao limite natural de expansão, seria possível fazer uma Nova Odivelas. Não só porque um espaço comercial e público de dimensão considerável acabava de ser criado, mas porque o metro e a necessária intermodalidade dirigiram para aquele lugar – que até ali tinha sido um lote expectante – um grande e constante fluxo de pessoas.  

E de facto, a estação de metro parece ter gerado uma reabilitação das imediações, o que afectou particularmente a Quinta Nova. São dos últimos vinte anos as intervenções  municipais que produziram – enfim! – desenhos qualificados para o espaço público entre os edifícios:  a reconversão do parque de estacionamento ao ar livre em parque fechado, tendo na cobertura o Parque Egas Moniz, com ajardinamentos e um parque infantil, o arranjo do Largo Elina Guimarães, da Praceta José Régio, da Praceta Mirita Casimira, a arborização de muitas das ruas.  

A Quinta Nova ganhou, de facto, um valor de centralidade ao ver-se rematada pela estação de metro, que redirigiu uma parte da vida urbana de Odivelas  para aquela zona-limite.  

Considerando, no entanto, a ambição que originalmente animou o projecto da Quinta Nova, é curioso verificar que foram necessários cerca de trinta anos e um investimento coordenado entre infraestrutura e desenvolvimento imobiliário para que se assumissem na sua real dimensão as fragilidades legadas pela urbanização e que, afinal, têm revelado grande potencial. Graças a isto, Odivelas tem hoje um grande centro – apesar das limitações inerentes às cidades da cidade extensiva – e que, da renovada Feira do Silvado, à Avenida D. Dinis, à zona do Metro à Quinta Nova, aos dois eixos que ligam a Quinta do Mendes ao centro histórico, constitui hoje uma verdadeira ‘baixa de Odivelas’. Uma Nova Odivelas, de facto. 

 

(1) Cristina Cavaco, ‘Formas de habitat suburbano – Tipologias e modelos na área metropolitana de Lisboa’, Tese de Doutoramento – Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, Portugal, 2009.
(2) Processo 17460/U, folha 1217. Arquivo Municipal e Histórico de Odivelas.
(3) Uma designação quase ipsis-verbis emprestada do influente Plano de Urbanização de Chelas (1962 – 1964), embora na Nova Odivelas estes centros não fosem lineares, como em Chelas, mas celulares e atomizadas, à imagem da ‘Carta de Atenas’.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador