Póvoa de Santo Adrião II – Bairro da Codivel

Póvoa de Santo Adrião II – Bairro da Codivel

06.04.2025.

1 – Torres na cota baixa do Bairro da Codivel (Ana Brandão)
2 – Caminho de pé-posto de acesso ao Bairro (AB)
3 – Torre na cota baixa (João Cunha Borges)
4 – Espaço de estar entre as torres na cota baixa (AB)
5 – Conjunto em leque na cota intermédia (AB)
6 – Conjunto em leque, visto do Largo António Aleixo (JCB)
7 – Galeria de acesso aos prédios do conjunto em leque (JCB)
8 – Largo António Aleixo e torres na cota alta (JCB)
9 – Praceta João de Lemos, na cota alta (JCB)
10 – Bairro da Codivel, visto do Olival Basto (JCB)

As propriedades rurais chamadas Quinta da Barroca e Quinta do Poppe situavam-se no limite entre Odivelas e a Póvoa de Santo Adrião, um dos palcos onde se ergueria o subúrbio duma Lisboa em crescimento.

O Plano de Urbanização elaborado para a empresa CODIVEL, seguido na sua quase totalidade, é da autoria dos arquitectos Eduardo Goulart de Medeiros e Raul Bragança de Araújo Branco, e enviou-se à Câmara Municipal de Loures em 1970. Previa a construção de 1200 fogos para uma população aproximada de 4200 pessoas, subindo depois o número para 1660 fogos (1), e apresentava uma proposta moderna.

A aprovação superior só se confirma cinco anos depois. O facto de, no entretanto, se ter dado a Revolução de 1974, talvez tenha contribuído para a agilização do processo, uma vez que este território estava sob grande pressão popular para responder à crise habitacional (2).

Embora faseado em duas partes, a urbanização apresenta quatro composições morfológicas bastante distintas. No sector mais baixo da propriedade, implantam-se dez pequenas torres de cinco pisos. Um quadrante intermédio contém o conjunto mais monumental – cinco blocos de sete pisos dispostos em leque, com uma correnteza transversal ao nível mais baixo – e, na cota superior, uma sucessão de blocos entre os seis e os dez pisos com composições, ora rectas, ora com ângulos de 45 graus, mais seis torres de catorze pisos. A maioria dos projectos são da autoria dos arquitectos Joel Sant’Ana e A.J. de Santa-Rita (3).

É clara a intenção de criar zonas diferenciadas, mantendo os edifícios mais altos na cota mais alta e os mais baixos na zona mais baixa, assegurando a percepção do novo bairro como um todo. À variedade de morfologias, corresponderia também uma variedade de espaços públicos – pelo menos em potencial. Relvados arborizados mais contínuos na zona das pequenas torres, espaços impermeabilizados para estacionamento nas traseiras do grande conjunto, e a duplicidade entre o sistema viário e a grande zona verde onde se implantam os edifícios à cota alta.

À data da concepção, a modernidade dominava a transformação de Odivelas. Os grandes conjuntos planeados na década de 1960 e 1970 por empresas privadas com grande capacidade de investimento atraíram técnicos qualificados, cujas opções projectuais se compaginam com soluções adoptadas em grandes urbanizações do Estado.

Esta modernidade oferecia uma vantagem clara: o aumento da densidade residencial simultâneo com o aumento de áreas livres para instalação de equipamentos e de espaço público (4).

Mas cumpriram-se, de facto, as melhores intenções deste projecto?

As primeiras décadas após a construção parecem desmenti-lo. De facto, no local, reina a ilegibilidade (4). As composições, embora distintas, fundem-se umas nas outras, e parecem mais aleatoriamente vizinhas do que aparentadas. Num ambiente muito densamente construído, as urbanizações não têm espaços de enquadramento claros, misturam-se e confundem-se.

Muitos espaços públicos não deixam de ter grandes qualidades como espaço de estar. Uma arborização densa, alguns lugares de paragem com mobiliário urbano, uma certa alternância entre espaços mais abertos e espaços mais intimistas. Mas o que se verifica é sobretudo o pragmatismo: as ruas e cul-de-sacs para estacionamento e as zonas verdes para um lazer indistinto, alguns caminhos de pé-posto dando conta das movimentações pedonais que nem sempre acompanham o percurso das estradas.

Num bairro de tão grandes dimensões, e com tamanha disponibilidade de espaços livres, é possível – ou mesmo necessário – um projecto transformador, capaz de pormenorizar e especificar as diferentes zonas livres que intercalam com os conjuntos construídos, encontrando novas actividades e levando às últimas consequências a diversidade de soluções que o plano original contemplou. A passagem do futuro metro deixará o Bairro da Codivel, como agora é conhecido, mais ‘próximo’ da cidade e mais atractivo. Mas também põe em causa, definitivamente, a condição de dormitório que até hoje não se conseguiu reverter. E é provável que seja nas pracetas e zonas verdes do bairro que essa mudança melhor seja afirmada.

 

 

 

(1) Processo 1319/U, folha 568 (verso). Arquivo Municipal e Histórico de Odivelas.
(2) Teresa Marat-Mendes, João Cunha Borges, Rui del Pino Fernandes, Sara Silva Lopes, Jorge Afonso (org). Loures: as casas da Revolução. Lisboa: Dinâmia’CET, 2024.
(3) Processo 32806/OCP e Processo 23465/OCP. Arquivo Municipal e Histórico de Odivelas.
(4) Cristina Cavaco, Formas de habitat suburbano – Tipologias e modelos na área metropolitana de Lisboa, Tese de Doutoramento – Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, Portugal, 2009.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador