Charneca da Caparica II – Um novo centro

Charneca da Caparica II – Um novo centro

06.04.2025.

1 – Plano de Pormenor do Novo Centro Terciário da Charneca (plano: Câmara Municipal de Almada/ Localização: Lugar Comum)
2 – Rotunda Amália Rodrigues, a manter (Ana Brandão)
3 – Rua 25 de Abril/ Rua Casal do Povo, a manter (João Cunha Borges)
4 – Rua 25 de Abril/ Rua da Alagoa, a manter (JCB)
5 – Estrada Nacional 377-1, edificado a reestruturar (JCB)
6 – Rua da Amoreira, a demolir (JCB)
7 – Edificado a demolir na EN377-1 (AB)
8 – Rua Guilherme de Azevedo, a demolir (AB)
9 – Edificado rural a demolir na Rua 25 de Abril (JCB)
10 – Edifícios a demolir na Rua da Amoreira (JCB)

Data de 2016 a publicação do Plano de Pormenor (PP) do Novo Centro Terciário da Charneca da Caparica, que cobre uma área considerável, entre Palhais e Marco Cabaço. Este centro proposto vem, de certa forma, reequacionar a distribuição das funções não-residenciais, num contexto em que esse problema nunca tinha sido formalmente colocado.

De facto, o vasto e algo caótico tecido urbano da Charneca resulta de inúmeras operações de loteamento clandestino, que se arrastam desde a década de 1960, e que em 1983 a CMA, encomendando um estudo à empresa de planeamento Hidrotécnica Portuguesa (HP), procurou conter e reequilibrar. Sem sucesso. Os planos produzidos pela HP para a Charneca e a Sobreda não vingaram, e o desenvolvimento urbano avançou sem grandes freios. De onde resultou uma grande extensão de loteamentos residenciais pontuados pela ocasional loja ou café. Serviços e comércio tenderam a fixar-se na Estrada 377, que atravessa a quase totalidade da Charneca (incluindo a zona do PP), e por isso é local de passagem quase obrigatória para quem se desloca ali ou para ali, ou para quem por ali passa, a caminho da Costa ou de Almada. A já clássica ‘rua da estrada’.

A proposta do Novo Centro Terciário implica, por isso, uma mudança paradigmática: um centro com dimensão e extensão que vem sobrepor-se ao que tem sido, até hoje, um centro linear. Por outro lado, e pela primeira vez, pensa-se para a Charneca uma grande zona urbana em que a função residencial não toma a dianteira.

Quis o acaso que esta zona, bastante central na Charneca, pouco fosse afectada pela urbanização. Quem por ali passe, ainda hoje, encontrará sobretudo áreas expectantes, abandonadas, com vegetação rasteira cortada por caminhos de pé posto, e os corredores de infraestruturas, cruzando-se ali a EN 377 e a Estrada da Carcereira, articulada com a A33. Aqui, propõe a CMA construir um grande conjunto urbano: quinze quarteirões com habitação em altura e comércio nos pisos térreos, mais um conjunto de cinco pequenos quarteirões para moradias, fazendo a transição para os loteamentos pré-existentes, mais nove quarteirões – alguns de grande dimensão – para serviços e actividades económicas.

Toda esta nova oferta vai cobrir terrenos sem construção, embora também implique um conjunto de expropriações e demolições, por norma comportando edificado rural ou operário da transição do século XIX para o século XX, ou pequenos loteamentos clandestinos. São pouco mais que pequenos arruamentos, irregularmente alcatroados, sem passeios e sem espaço demarcado para estacionamento. Quaisquer que sejam as suas características, não se revêm na imagem proposta pelo PP. E não é apenas a morfologia do edificado – mesmo da função residencial – mas também e sobretudo a relação que o edificado tem que o exterior. A proposta do PP demarca-se pelo reequilíbrio entre a densidade construída e o espaço público – assim, os quarteirões semiabertos serão ajardinados e arborizados, e todo o conjunto é enquadrado por um parque verde de estrutura linear, que enquadram as zonas dominadas por serviços.

Assim, é importante olhar para a proposta deste PP não apenas pelo objectivo que directamente o motiva – a criação de equipamentos e serviços que aumentem a diversidade de usos da Charneca e criem postos de trabalho locais – mas também pela estratégia de desenho urbano em que este objectivo se materializará. Tanto quanto a dinamização económica – que foi encontrando lugar na Estrada 377, com todas as suas limitações – a criação de espaço público é vital para melhorar a qualidade urbana da zona, contrariando a visão de monotonia que por norma assombra as grandes extensões clandestinas.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador