Arroja I – Pracetas

Arroja I – Pracetas

06.04.2025.

E se o prédio tivesse uma praça? Esta parece ter sido a pergunta que se colocaram os arquitectos Eduardo Goulart de Medeiros e Carlos Homem de Sá (equipa a que depois se juntou António Abrantes), ao desenhar os prédios da Arroja. O módulo de base combina dois edifícios diferentes, ambos com planta em L, formando-se entre ambos uma praceta e duas vielas pedonais.

O projecto original, começado em 1973, propunha uma urbanização naquela zona, até então de aproveitamento agrícola, com um empreendimento de 934 fogos para 3350 habitantes, dotado ainda de escola primária, zona comercial e espaços verdes (1). Eventualmente, a urbanização seria estendida para várias fases, constituindo uma das principais expansões para norte do eixo Odivelas – Pombais.

Dentro da sua arquitectura relativamente anónima, estes prédios com pátios – que depois receberam o nome de pracetas na toponímia – destacam-se pela sua solução pouco convencional que já não concerne apenas o desenho arquitectónico, mas também o desenho urbano. O Plano de Urbanização reabilita algo do conceito de quarteirão com frentes e interior, dispondo um conjunto em grelha em torno dum centro funcional. A concepção de três tipologias de edifício introduz variação na paisagem: a sul uma zona de torres, outra intermediária com bandas paralelas, e a norte uma unidade com nove prédios em pátio.

Este último quarteirão merece alguma atenção especial, por causa do seu subsistema de vazios de pequena dimensão, abertos mas intimistas, entre o espaço público e o espaço vicinal.

A unidade norte é totalmente relvada, uma ligeira elevação resguarda-a da estrada, do estacionamento e do terminal dos autocarros. No subsistema de vielas e pracetas encontram-se canteiros, arbustos, árvores, sinais de ocupação dos moradores, roupa estendidas, graffiti mais concentrado ou menos, uma ou outra pessoa que vem arejar com o cão. São espaços de pequena escala, a proximidade das casas afirma-se na presença da roupa estendida, aproveitando as zonas de sombra e luz que variam ao longo do dia. No entanto, tudo isto parece decorrer ainda ao nível das intenções mais do que da realidade – os sinais de ocupação vão sendo ainda incipientes. Talvez porque os pátios foram concebidos para uma noção de vida e lazer urbanos que não se verifica realmente?

Observando o contraste entre o ambiente das pracetas e a unidade como um todo, parece claro que o desenho dos arquitectos privilegiou o primeiro: a ênfase é colocada no pátio – espaço de estar – e não nas vielas – espaço de circulação – que não formam um percurso contínuo. Em parte, por não haver pontos específicos de atracção que justifiquem tal percurso.

No entanto, este quarteirão é um exemplo dum desenho que integra espaço público qualificado não como complemento à arquitectura, mas como elemento arquitectónico específico, gerador dum espaço vicinal claramente demarcado, permeável e enriquecedor do ambiente urbano. Mesmo com os ocasionais emaranhados de tags em alguns pontos, ou a manutenção em falta nalguns edifícios, não deixam de ser espaços simpáticos. Não falta sequer o elemento pitoresco – a ruína (estruturalmente) conservada no limite norte do terreno. Poderá este esquema de pequenos espaços vicinais gerar, nos próximos anos, uma requalificação deste conjunto, que reaproveite as suas qualidades latentes?

 

 

Processo 11380/U, folhas 13 a 11. Arquivo Municipal e Histórico de Odivelas.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador