Monte da Caparica II

Monte da Caparica II

06.04.2025.

1 – Monte da Caparica, vista sul (João Cunha Borges)
2 – Rua Alfredo Cunha (JCB)
3 – Travessa da Graja, reabilitada (Ana Brandão)
4 – Mercado Municipal do Monte da Caparica (JCB)
5 – Habitação unifamiliar na Rua Alfredo da Cunha (JCB)
6 – Habitações colectivas de baixa densidade, Rua Alfredo da Cunha (JCB)
7 – Cooperativa Agrícola de Almada e Seixal (JCB)
8 – Loteamento em construção, Rua Francisco Costa (AB)
9 – Vazio urbano junto do Largo da Torre (AB)
10 – Rua dos Trabalhadores Rurais (AB)

Em 1955, o arquitecto José Rafael Botelho, então chefe do Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal de Almada, desenhou o Plano de Pormenor 5 (PP5), prevendo a expansão do Monte da Caparica. Junto da aldeia, zonas comerciais e de serviços, alguns jardins públicos e privados, as escolas. Num anel em volta deste ‘centro renovado’ um conjunto de células habitacionais, com zonas de equipamento e jardins. Além da hierarquização do sistema viário, o plano previa uma rede de percursos pedonais, convergindo no centro.

Este plano não foi executado, e o ‘moderno’ Monte da Caparica acabou por fazer-se em terrenos a nordeste, através do Plano Integrado de Almada iniciado em 1971. A estrada de ligação entre o ‘assentamento leste’ de Almada e a Costa da Caparica vincou a separação entre o antigo núcleo rural e as suas imediações. Com a construção do Campus da Universidade Nova de Lisboa – FCT (projecto iniciado em 1977) e mais tarde com a criação da incubadora de empresas Madan Parque (1995), os terrenos mais próximos da aldeia conheceram novos espaços – e novos usos, que fariam prever também uma nova comunidade. A passagem do Metro Sul do Tejo, além de facilitar a conexão do Monte com o ‘Aglomerado Leste’ de Almada, veio também estruturar claramente os limites da zona de possível expansão da aldeia, embora por outro lado também marque uma definitiva perda de centralidade.

Em 2013, a Câmara Municipal de Almada aprovou os limites e programa da Área de Reabilitação Urbana – ARU do Monte da Caparica, a primeira abordagem à estruturação urbana deste assentamento. A estratégia visa não apenas a reabilitação do edificado, mas também o melhoramento e integração de aspectos económicos e sociais, incidindo em grande medida sobre espaço público e as funções que lhe estão directamente associados. Assim, renovaram-se os elementos urbanos do Largo Cândido dos Reis, o átrio da Igreja de Nossa Senhora do Monte da Caparica; reestruturou-se o acesso e parte da área livre em volta do Mercado Municipal; criou-se um jardim num terreno expectante.

Nas ‘traseiras’ das principais ruas do Monte da Caparica, existem vários espaços desocupados, uma parte dos quais classificados no PDM (de 1994) como espaços urbanos.  Por outro lado, o recente lançamento do projecto do Innovation District, que mobilizará 800 milhões euros de investimento e implicará a criação de 17 000 empregos entre o Monte de Caparica e o Porto Brandão, contribuirá para trazer o Monte para um contexto vincadamente metropolitano.

No entanto, se todos os projectos referidos têm contribuído para diversificar e vivificar o Monte da Caparica, também nunca deixam de confirmar o que tem sido a história urbana deste lugar: a persistência duma certa fragmentação, que começa na insularidade das suas extensões modernas – os bairros do Plano Integrado de Almada e o campus da UNL-FCT – e termina nos estacionamentos improvisados e nas escadas e valetas que vão ligando os diferentes percursos uns aos outros. O que fica, portanto, é um tremendo potencial que, para ser melhor explorado, apenas carecia duma estrutura coesa que conferisse, ainda que retroactivamente, alguma ordem no território. Estrutura essa em que, sem dúvida, o espaço público terá um papel central.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador