Persistências rurais em Odivelas

Persistências rurais em Odivelas

06.04.2025.

1 – Calçada de Carriche em 1938 (autor desconhecido)
2 – Espera de Touros na Calçada de Carriche (Revista ‘Panorama’, 1945)
3 – Casa dos Caracóis, taberna na Calçada de Carriche (autor desconhecido, circa 1965)
4 – Moinho na Arroja (Luís Pereira, 1994)
5 – Moinho na Ramada (Luís Pereira, 1994)
6 – Moinho no Casal do Chapim, Ramada (João Cunha Borges)
7 – Moinho na Arroja (JCB)
8 – Calçada de Carriche em 1938 (autor desconhecido)
9 – Hortas urbanas na Cerca do Convento de Odivelas (JCB, 2019)
10 – Parque hortícola da Quintinha, Póvoa de Santo Adrião (JCB, 2019)
11 – Hortas urbanas no Vale dos Kágados (JCB, 2019)

No passado como no presente, pensar em Odivelas é também pensar na Calçada de Carriche, a grande artéria de ligação a Lisboa. Apesar da permanência desse vínculo, estes são, no tempo, lugares muito distintos, dependendo de se falamos antes ou depois da década de 1960, quando Odivelas, Carriche e a sua Calçada sofreram transformação radical.

A grande artéria servira, até então, uma economia rural. Que se vê pelas fotografias onde toiros e vacas são encaminhados calçada acima por saloios a cavalo, entre prédios oitocentistas e muros baixos, atrás dos quais brilhavam oliveiras ao sol. E calçada acima ia o gado, para a arena da tourada no Campo de Santana, ou para o matadouro municipal no Campo Grande. A este bucolismo não era alheia, apesar de tudo, a proximidade à gente da capital e aos seus hábitos. Está documentada a importância das tabernas e casas de pasto, bem como das hortas onde estas faziam as suas esplanadas, desde meados do século XIX até ao final da década de 1920: eram locais de afluência ao domingo para os lisboetas das classes populares e até de alguns sectores da burguesia (1). Embora se tratasse de espaços comerciais, estes lugares não deixavam de ser os espaços de convívio e festa, pontos de encontro e permanência, intrinsecamente ligados ao lazer e à cultura popular. Com a urbanização da Calçada de Carriche e do Lumiar, mais acima, este mundo apagou-se sob o peso das massivas torres e blocos de habitação de grande densidade.

Sobra então alguma coisa desse mundo perdido? As permanências aí estão, no território, recontextualizadas, tendo adquirido novos significados face ao que agora as circunda.

É o caso dos moinhos de vento, um dos grandes marcadores de identidade saloia. Um  levantamento do início dos anos 1990, identificou no território de Odivelas quarenta e um moinhos, muitos dos quais em avançado estado de degradação (2). Em zonas como Famões, Presa, Quinta do Alvito ou Casal do Segolim, marcadas pela grande extensão de loteamentos clandestinos, muitos destes moinhos foram adaptados a habitações, perdendo-se entretanto a sua estrutura original, enquanto outros foram sumariamente demolidos. Outros, no entanto, foram subsistindo e, embora sem utilização prática, têm ainda valor simbólico . É o que acontece na Arroja, ou no Casal do Chapim, à Quinta Nova. Aqui, encontramos os moinhos reabilitados, embora encerrados, lembranças de uma identidade passada.

Situação diferente é a das hortas urbanas.

A agricultura urbana não só se verificou em Lisboa e nos seus subúrbios ao longo do século XX – o século da grande urbanização – como tem ganho, na última década, uma expressão cada vez mais significativa. Na última década, várias Câmaras Municipais têm também feito um esforço no sentido de aproveitar esta prática pelo seu potencial de melhoramento do ambiente urbano, formalizando hortas informais ou criando parques hortícolas de raiz, mobilizando os próprios utilizadores como agentes da qualificação e manutenção paisagísticas. Um levantamento conduzido em toda a Região Metropolitana de Lisboa entre 2018 e 2020, encontrou mais de 300 conjuntos de hortas urbanas – municipalizadas, informais e colaborativas – nos dezoito municípios, incluindo Odivelas (3).

Uma observação deste território hoje mostra vários exemplos que continuam a existir: Quintinhas (Póvoa de Santo Adrião), Barruncho (Póvoa de Santo Adrião), Quinta da Várzea (Olival Basto), na antiga cerca do Convento de Odivelas, Pombais, Colinas do Cruzeiro, em volta da Ribeira da Arroja, Bairro da Milharada, vários sectores de Famões. Destaca-se no entanto um grande conjunto a sul do Bairro dos Kágados, em continuidade com o Parque Urbano da Ribeira da Costa, mas não inserido nele, por enquanto. Este conjunto faz uma utilização adequada das condições físicas – aproveita a humidade do leito de cheia, criando à sua volta uma paisagem trabalhada e fértil.

Desligadas das práticas de agricultura e horticultura que aconteciam neste território há cem anos, estas hortas urbanas são lugares de inegável afluência, onde a presença humana, mesmo quando não se verifica, está profundamente marcada: nenhuma horta subsiste sem cuidados.

Em Odivelas, as hortas existem em terrenos onde a construção é desaconselhável, mas também em lotes expectantes ou espaços de enquadramento do edificado onde nunca chegou a implantar-se qualquer desenho de espaço público. Embora Odivelas conte já com vários parques hortícolas municipais, o contributo de muitos conjuntos para a estrutura ecológica municipal e para a qualidade de vida nos bairros pode ir ainda muito mais longe. E assume, em qualquer dos casos, uma função prática e voltada para o presente e o futuro, em contraste com os moinhos, cuja função é essencialmente simbólica.

Dada a sobreposição entre um uso apropriado de terrenos difíceis e a expressão da vontade popular, as hortas urbanas têm hoje a possibilidade de se constituir como parte central duma estratégia de biodiversidade e de sustentabilidade, que surge da população e a serve, reconhecendo-lhe os interesses e aspirações próprias.

 

 

(1) Rui Viera Nery (2004). Para uma história do Fado (edição revista e aumentada). Lisboa: Público.
(2) Luís Pereira (1994). ‘Distribuição espacial das unidades de moagem do Concelho de Loures’, in Moinhos e Azenhas de Loures. Loures: Câmara Municipal de Loures.
(3) Teresa Marat-Mendes, Sara Silva Lopes, João Cunha Borges, Patrícia Bento d’Almeida (2021). Atlas of the food system: challenges for a sustainable transition of the Lisbon Region. Berna: Springer.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador