Sobreda I – Dispersão e consolidação
06.04.2025.










1 – Vista da Quinta da Caneira (Ana Brandão)
2 – Construção formal na Quinta da Caneira (João Cunha Borges)
3 – Loteamento clandestino na Quinta da Caneira (JCB)
4 – Rua Almerinda Correia, Quinta da Caneira (AB)
5 – Rua principal da Quinta de Baixo (JCB)
6 – Centro terciário de lazer e desporto da Quinta de Baixo (AB)
7 – Campo desportivo na Quinta de Baixo (JCB)
8 – Praceta do Bairro CAR de Vale Flores (AB)
9 – Envolvente do Bairro CAR de Vale Flores (JCB)
10 – Monumento às Mulheres no Parque Urbano da Sobreda (JCB)
As ruas, muitas delas estreitas com passeios irrisórios, poderiam ser de qualquer bairro clandestino da periferia lisboeta. Mas a Sobreda, que ora reitera ora se desvia do padrão típico desses loteamentos em grelha com edificações ecléticas, não é produto só da urbanização clandestina, mas dum misto desta com outros processos urbanos.
Começa tudo como na maioria da urbanização clandestina – na viragem da década de 1950 para 1960, energizada pela modernização infraestrutural da Grande Lisboa.
Esta era uma área contida entre quatro linhas de água (Guarda-Mor, Sobreda, Regateira e Charneca) subsidiárias da Vala de Corroios. À volta duma única povoação significativa – a Sobreda – dispunham-se grandes quintas solaregas, com casario disperso onde havia agricultura de regadio nos vales aluvionares das ribeiras, e culturas de sequeiro nas encostas, notavelmente os olivais (1).
O processo de loteamento clandestino teve neste território particular agressividade por se desenvolver em propriedades distantes, erradicando a paisagem rural por uma paisagem (mal) urbanizada a intervalos muito irregulares.
As urbanizações do mercado legal contribuíam para esta dispersão, e também não se ancoravam em nenhum princípio global de ordenamento – assim desde a década de 1960 até aos anos 1990, quando o PDM de Almada surge, com regulamentação própria para esta zona. O mercado mexia-se, o território mexia-se à medida deste.
A Quinta Nova, cujo processo de loteamento e urbanização se inicia em 1973, destaca-se entre as urbanizações formais pelo seu modelo misto: um loteamento para moradias, e um centro de alta densidade com equipamentos, espaços públicos e comércio. O centro, com as suas torres e blocos, mediando entre um jardim e a escola, cumpre, sem excessos, o princípio de providenciar vida colectiva à nova comunidade. O processo baseia-se num Plano de Urbanização da quinta, da autoria de Luís Joaquim Silva Oliveira, prevendo o loteamento, os projectos das habitações colectivas e um projecto-tipo de moradia. Obtém-se assim uma coordenação e um conjunto de cedências que os bairros clandestinos não tinham. De notar é a zona de equipamentos desportivos entre as torres, hoje de utilização intensa, sobretudo por parte duma camada mais jovem, mas em proximidade com outras gerações, utilizadoras dos cafés, dos parques infantis, do mobiliário urbano.
Intervenção de excepção é também o Bairro CAR na Quinta de São Francisco em Vale Figueira, projecto da empresa Turcopol para o programa da Comissão de Alojamento a Refugiados – CAR, lançado em 1976. A execução do bairro nos anos seguintes permitiu que cumprisse funções suplementares no realojamento das famílias deslocadas para construção do Hospital Garcia de Orta, então no início do seu planeamento. Com dois núcleos – um de blocos de apartamentos e outro de moradias de piso único em banda, ambos pré-fabricados – o projecto original previa alguns equipamentos que nunca se materializaram, e a própria urbanização do bairro teve opções questionáveis (casas abaixo da cota da rua, espaços intersticiais mal resolvidos). A praceta sobrelevada no núcleo de baixa densidade, pensada como o centro nevrálgico do bairro, apresenta hoje pouca qualificação, e os sinais de uso parecem decorrer mais da vida doméstica do que do convívio.
A densificação dos loteamentos clandestinos seria um processo demorado, consolidando-se pelo final do século XX, a montante do crédito facilitado e a proliferação de segundas habitações. Estes ‘clandestinos’ tornaram-se dominantes na Sobreda, embora alguns deles – o Casal de Santo António ou a Quinta do Chiado – apresentem uma estrutura urbana com espaço para requalificação. Outros, no entanto, revelam-se menos adaptáveis embora quase todos já tenham tido intervenção razoável ao nível da infraestrutura.
Na transição para o século XX, foram-se construindo novos empreendimentos, por vezes nos terrenos de fábricas de tijolos ou telhas cujas chaminés foram reaproveitadas como marcadores identitários. A Quinta do Desembargador, a Quinta do Pedro Manso, a Quinta dos Castanheiros, a zona industrial a sul do Bairro CAR – quase sempre conjuntos de habitações unifamiliares em loteamentos generosos, retomam a promessa da casa própria, em moldes qualificados e para um mercado afluente. Outros empreendimentos, de habitação colectiva, anunciam uma preferência por esta forma, de modo a densificar a ocupação geralmente baixa da Sobreda. O Parque Urbano, com um longo percurso por áreas ajardinadas e áreas assilvestradas, aproveitando a vegetação autóctone alimentada pela ribeira, e com o Monumento às Mulheres, surge como uma resposta mais recente aos desafios de reestruturação funcional duma área especialmente desafiante. Assegurado que está um equipamento ‘centralizador’ para a Sobreda, será de esperar a futuro um maior foco na intervenção de proximidade?
(1) Hidrotécnica Portuguesa (1978). Reordenamento de loteamentos clandestinos – Zona da Sobreda, Vale de Figueira e Vale Flores – Plano Geral de Intenções. Arquivo Municipal de Almada.
João Cunha Borges
Researcher | Investigador