Odivelas: uma introdução

Odivelas: uma introdução

2024.06.02

1 – Centro Histórico de Odivelas (Ana Brandão)
2 – Centro Histórico da Póvoa de Santo Adrião (João Cunha Borges)
3 – Odivelas: vista da Quinta Nova desde o Bairro dos Kágados (JCB)
4 – Zona urbana da Póvoa de Santo Adrião (AB)
5 – Urbanização da Arroja (JCB)
6 – Zona norte da ‘Costeira’: Bairro da Cortegaça, Quinta da Serra e Bairro Cassapia (JCB)
7 – Zona sul da ‘Costeira’: Serra da Luz (JCB)
8 – Zona sul da ‘Costeira’: Largo da Saudade no Vale do Forno (JCB)
9 – Famões: edifícios rurais no Bairro de Trigache (JCB)
10 – Famões: Jardim da Anta (AB)
11 – Parque Urbano da Quinta da Ribeirada (AB)
12 – Urbanização dos Jardins da Radial (AB)
13 – Centro Histórico de Odivelas: Jardim da Música (AB)
14 – Feira de levante do Silvado (JCB)

Apesar da antiguidade do seu principal assentamento, Odivelas existe como município apenas desde 1998, esse sendo um dos momentos mais marcantes da sua história.

O território manteve-se fundamentalmente rural até ao final da década de 1950, e mantiveram-se com pequenas dimensões a maioria dos seus assentamentos – Póvoa de Santo Adrião, Pombais, Amoreira, Carriche. Tratava-se, no fundo, duma zona do interior rural do município de Loures – embora confinasse com outros terrenos rurais de Oeiras (hoje Amadora) onde os cultivos começavam a ser substituídos por urbanização precária.

Pequenos processos de urbanização privada foram começando lentamente a transformar esta realidade, sobretudo em volta da Calçada de Carriche, e materializando-se em pequenos bairros como o Bairro dos Kágados em Odivelas e o Bairro Daniel Bento no Olival Basto. A excepção será o Bairro Olaio, na antiga Quinta do Espírito Santo em Odivelas, cuja primeira fase já anuncia o ciclo de crescimento que se iniciará na década de 1960.

A alavanca para esta transformação foram os melhoramentos infraestruturais, nomeadamente a Estrada Nacional 8 e a variante da Estrada Nacional 250. Ambas melhoraram os acessos a Odivelas, tornando as suas quintas apetecíveis para urbanização. Uma parte desse processo acontece de maneira formal, com empreendimentos privados a ser encetados em Odivelas e na Póvoa de Santo Adrião, enquanto urbanizações maiores ou mais parcelares se iam desenvolvendo no Olival Basto e na Pontinha. Nesta última localidade, organismos do Estado promoveram ainda um conjunto de bairros sociais para famílias de poucos recursos. Outros bairros sociais seriam criados em Odivelas para realojamentos no seguimento das grandes cheias de 1967.

O outro lado deste processo de urbanização ocorreu ao nível do mercado clandestino, com grandes loteamentos a ser promovidos na própria costeira – Serra da Luz, Quinta do José Luiz, Encosta da Luz, Vale do Forno, Bairro da Cortegaça, Quinta da Várzea, Quinta da Serra e Cassapia – mas ainda na grande área rural de Famões, na encosta oposta (e mais suave) da Ribeira da Costa.

Apesar da produção de alguns planos de urbanização procurando estruturar o crescimento, foi sobretudo o mercado que conduziu a transformação. Formais ou informais, as urbanizações foram continuando, em paralelo, em pontos diferentes do território, o que criaria uma série de problemas que esperariam várias décadas para ser resolvidos.

No período da democracia, o crescimento mantém-se dentro dos loteamentos clandestinos, enquanto na zona urbana formal Odivelas – Póvoa de Santo Adrião, os terrenos às cotas mais altas continuam a ser urbanizados. É o caso da Ramada, da Arroja e das Quintinhas.

Embora procurando aplicar a todo o território concelhio (de então) regras coerentes de urbanização e de consolidação de tecidos urbanos, o Plano Director Municipal de Loures de 1997 também não conseguiu afirmar uma visão específica para Odivelas, tratando-a como um sector suburbano e monofuncional, com um ritmo de vida e de transformação determinado por Lisboa. Isto terá em muito contribuído para a autonomização de Odivelas enquanto município, algo que se verifica em 1998.

É um pouco anterior a esta data a preocupação com a reabilitação urbana do centro histórico da cidade, mas será a criação do novo município a energizar esta longa e complexa operação. A reabilitação do edificado, a diversificação funcional, os melhoramentos na circulação e no espaço público tornaram-se assim concomitantes com o reforçar de uma matriz identitária para o território e a criação de serviços e equipamentos adequados a uma sede municipal.

Financiamentos europeus permitiram a extensão do Metro de Lisboa para Odivelas em três pontos – Odivelas, Senhor Roubado e Pontinha – assim firmando a íntima ligação de Lisboa com o município, sobretudo na sua zona urbana.

Compaginado com esta procura duma ‘nova imagem’ de Odivelas, verifica-se a partir de 2000 a execução de novas urbanizações com uma oferta diferenciada e provisão de serviços e comércio que garantissem a estes bairros uma certa autonomia: Ribeirada e Colinas do Cruzeiro.

Mais recentemente, a zona da ‘costeira’ entre a Pontinha e o Senhor Roubado, quatro loteamentos clandestinos foram em 2009 objecto dum Plano de Urbanização de grande ambição e exigência, que contempla a criação de equipamentos e espaços públicos, muitos deles projectados e construídos de raiz, melhoramentos infraestruturais, reforço geológico, prevenção de riscos, correcção de traçados e diversificação de actividades económicas.

Na actualidade, Odivelas apresenta um conjunto de tecidos urbanos que resultam de processos desconexos de urbanização privada, donde a carência de qualificação urbana – incluindo os défices de equipamento, de estrutura ecológica, de espaço público, e de zonas verdes de enquadramento – tem sido a principal motivação para o investimento público. Dada a pluralidade de problemas, os espaços públicos pensados no sentido desta requalificação passam tanto por espaços de grande dimensão – vários parques urbanos, o recinto da Feira do Silvado, as funções associadas às três estações de metro concelhias – e espaços de proximidade – como sejam as várias obras em pracetas, zonas de estacionamento e quarteirões abertos.

Com a intervenção pública a regenerar os espaços associados à principal zona urbana – entre a Ribeira da Costa e o corredor da A9 – será previsível que nos próximos anos esta intervenção comece a estender-se de forma mais significativa às áreas menos requalificadas, nomeadamente Famões e a envolvente de Caneças.

João Cunha Borges
Researcher | Investigador