Almada: uma introdução

Almada: uma introdução

2024.06.02

1 – Almada, zona das Torcatas (Ana Brandão)
2 – Cacilhas, Rua Cândido dos Reis (João Cunha Borges)
3 – Rua de pescadores, Costa da Caparica (AB)
4 – Costa da Caparica (JCB)
5 – Quinta do Rato, no Laranjeiro (JCB)
6 – Trafaria (AB)
7 – Porto Brandão (AB)
8 – Cova da Piedade (JCB)
9 – Laranjeiro, urbanização da Quinta de Santo Amaro (JCB)
10 – Bairro Amarelo do Plano Integrado de Almada (JCB)
11 – Quinta de Baixo, na Sobreda (JCB)
12 – Urbanização clandestina na Sobreda, Quinta do Guarda-Mor (JCB)
13 – Paredão reabilitado na Costa da Caparica (AB)

A história urbana de Almada pode, em traços largos, dividir-se em quatro ciclos de transformação territorial, de onde decorrem as condições encontradas hoje, ao início do século XXI. 

Um primeiro momento, nas primeiras quatro décadas do século XX, parte das pequenas extensões urbanas dos núcleos existentes no município – Almada, Cacilhas, Cova da Piedade, Pragal e Trafaria – decorrentes da industrialização, já em curso desde meados de oitocentos, e ainda do acesso a Lisboa, então possível apenas por barco a vapor. Apesar da produção de vários planos de urbanização, quer ao nível do Estado, quer do município, a sua implementação foi sempre parcelar. 

Situação à parte é da Costa da Caparica, de assentamento recente de comunidades piscatórias ao qual se junta logo a seguir o turismo de praia. O crescimento é feito pela intervenção estatal para estes dois públicos (promoção de bairros para pescadores, plano de urbanização e equipamentos públicos), mas também pela intervenção do mercado e pela urbanização popular – continuando nas décadas seguintes. 

A partir da década de 1950 e sobretudo de 1960, começa um segundo momento, de grandes expansões urbanas, a maioria nas áreas rurais a sul do eixo Cacilhas – Cova da Piedade – Pragal. Tomam a forma de grandes urbanizações de alta densidade, de loteamentos clandestinos, ou ainda de ‘urbanização popular’. O Feijó surge como zona mista de urbanizações formais em massa, como no Laranjeiro, ou de loteamentos clandestinos de dimensão variável, como no eixo de expansão que começa, timidamente, a desenhar-se para oeste, na direcção da Sobreda. Com um planeamento urbano pouco consequente, esta época não deixa de ser marcada pela construção de alguns bairros públicos.  

A construção da Ponte sobre o Tejo, inaugurada em 1966, abre o território a novas levas e dinâmicas de urbanização. A dinâmica de grandes manchas urbanas emergentes parece culminar em 1971 com a aprovação do Plano Integrado de Almada (PIA), em terrenos entre o Monte da Caparica e o Pragal. Previa-se uma grande vila nova, com equipamentos e serviços próprios, autónoma. Fenómeno paralelo foi ainda o loteamento de terrenos rurais no interior do município – na Sobreda e na Charneca da Caparica – embora a construção nesses lotes tenha acontecido também ao longo das décadas seguintes. 

Um novo ciclo é encetado pela Revolução dos Cravos (1974-75) e a consolidação do poder democrático local, que passa sobretudo pelo esforço de assegurar boas condições nas urbanizações em curso, e ainda de infraestruturar muitas das zonas entretanto desenvolvidas. Este ciclo culmina, após cerca duma década de preparação, na publicação do Plano Director Municipal (PDM) de 1994, que orientará a lógica de actuação nos vinte anos seguintes. Destaca-se a disseminação de equipamentos e espaços públicos de escala local, dando resposta directa à polinucleação que se havia afirmado desde a década de 1950. A ideia de qualidade de vida associada à qualidade do espaço urbano está patente na lógica de actuação. Neste ensejo verifica-se a criação de vários parques urbanos e jardins públicos, uma preocupação com o espaço público e as suas funções, e ainda o aumento da oferta municipal de funções não-residenciais, algumas delas pensadas já para uma escala metropolitana. 

Por outro lado, esta é também a era da criação de novas infraestruturas, incluindo o Metro Sul do Tejo (MST) pensado para conectar as principais aglomerações da Margem Sul do Tejo, embora actualmente se estenda apenas até Corroios.  

Um novo ciclo pode identificar-se ainda quando este esforço de qualificação alargada e de promoção da qualidade de vida está já assegurada, e prende-se fundamentalmente com questões de reabilitação e requalificação urbanas, com operações como “Nova Almada Velha” ou a ARU de Cacilhas onde se conjugam intervenções no espaço público e no edificado destes núcleos históricos no sentido de acolher novas funções, modernas e cosmopolitas. 

Numa lógica semelhante, mas com formas de actuação necessariamente distintas, a requalificação de Áreas Urbanas de Génese Ilegal (AUGI), através de processos de reconversão urbanística ou de Planos de Pormenor, também marca as preocupações mais recentes em Almada. Nuns casos, a preocupação é com a regularização da urbanização e dos loteamentos, procurando promover alguma densificação num contexto onde predomina a baixa-densidade habitacional. Noutros casos, há propostas mais transformadoras, que visam introduzir funções urbanas e valores de centralidade. 

De forma geral, Almada apresenta uma grande diversidade de tecidos urbanos e de condições de vida doméstica e pública, embora se verifiquem padrões relativamente organizados na distribuição das diversas situações.  

A aposta da intervenção pública na qualificação generalizada e distribuída pelo município tem tido particular expressão no espaço público, que representa a intervenção pública num território mormente transformado pelo mercado privado. Este valorizar da esfera colectiva verifica-se, de resto, a todas as escalas – desde a de grande ambição com valor metropolitano, aos espaços ‘centrais’ dos diferentes sectores urbanos específicos, aos espaços de proximidade ligados intimamente aos bairros.   

João Cunha Borges
Researcher | Investigador